23/11/09


Fotografia de Nan Goldin

Aqueles que sentem que não sentem nada podem procurar a dor, não tanto como sentimento mas como forma de sentir. Há uma ligação implacável entre a dor e a memória. Cada golpe, marca de sangue, é já marca d’água na memória. E só os que têm memória têm biografia, só estes podem sentir na carne as coisas como suas.

22/11/09



(Há 30 anos atrás, o mesmo sítio descaracterizado onde hoje apanho comboios que embora cheguem, sem sombra de dúvida, ao destino previsto, parecem não me levar a lado algum.)

21/11/09


Instalação de Ana Mendieta

“A arte tem uma tendência basicamente enganadora e perigosamente traiçoeira; a sua alegria perante a anti-razão escandalosa, e a sua tendência para a barbárie criadora de beleza não podem ser extirpadas.” Thomas Mann

(E quantas vezes a arte impele a um rasgo de violência sobre o corpo, sobre os elementos ou as harmonias prévias. O arrependimento, podendo ser necessário, é aqui mais difícil, recuando perante a criação bárbara, e não tanto cruel, da beleza.)

20/11/09


Fotografia de Tracey Emin

“E o ouro desfez-se nos dedos”. Poderia ser uma metáfora mas não, as mãos atiravam as jóias contra o chão, puxavam as extremidades dos fios até rebentarem, despedaçavam o trabalho da filigrana. Mas o ouro a escorrer pelos dedos e a espalhar-se pelo chão não resplendia de nenhum modo particular. Todos os tipos de ouro falso e ouropel brilhariam certamente assim, à vista desarmada e já um pouco turva. Materiais amarelados cuja distinção seria assunto para peritos. Era isso, um amarelo tostado. Deixou-se estar ali no chão sem ponderar sequer que mais valera vender as jóias e guardar o dinheiro. Ou dá-lo a alguém que necessitasse. Valeria um ordenado mínimo, talvez menos. Ou nada. Estava ali espojada no chão e a ver o quão pouco tudo aquilo valia.

19/11/09

E então, enquanto os altifalantes anunciavam a partida, prometeu que haveria de voltar. Embora não podendo continuar as suas disposições sobre aquele solo estrangeiro, não queria entregá-las já ao fim. Volveria, marcando o território uma segunda vez na afirmação do regresso, colonizando-o para amenizar a dor de não lhe pertencer. Voltaria para ajustar as contas, de guarda sobre os limites físicos da terra estranha. (Claro, nunca retornou. A distância acaba por impor a certeza de que do outro lado já não há nada. Se regressar, será por outros motivos, o que, por sua vez, não deixará de trazer um travo amargo.)

17/11/09


Pintura de Daniel Richter

Dizem muitos prisioneiros que, apesar de tudo, as torturas físicas são preferíveis ao confinamento e à privação sensorial durante longos períodos de tempo. Se a tortura leva ao sofrimento, a ausência de estímulos conduz à loucura. Sofrer às mãos do inimigo é, ainda assim, sofrer no mundo dos homens. Antes padecer enquanto homem, no seio da comunidade, do que enfrentar, sozinho, a perda de si mesmo. (Pela última vez, e por imperativos da natureza básica e não da moral, escolhe-se a humanidade.)

16/11/09

Os homens da "Overland Relief Expedition", 1898, autor desconhecido

“Será mais provável que uma fotografia de 1900 que era então comovedora pelo seu tema nos comova hoje por ser uma fotografia tirada em 1900. As qualidades e as intenções particulares das fotografias tendem a ser consumidas no pathos generalizado da passagem do tempo. (...) O tempo parece posicionar a maioria das fotografias, mesmo as mais amadoras, ao nível da arte.”
Susan Sontag, On Photography

15/11/09


Fotografia de André Kertész

Urbano-depressivo, um Narciso com um assento quebrado entre os homens. Chegou a dizer que preferia ter uma doença grave para que, ao menos, fosse conhecido (e reconhecido) aquilo que tinha dentro de si e fosse mais justa e menos irritante a sua melancolia.

14/11/09

Diz Sarah Kane, em 4:48 Psicose, que “não há nenhuma droga no mundo que torne a vida significante”. Uma frase com dois sentidos: um literal e outro que quer dizer simplesmente “nem sequer a droga dá um significado a isto”. (Mas ainda pior é viver na dualidade de saber com toda a incisão possível o que torna a vida significante e não conseguir tê-lo.)

12/11/09


Fotograma de Stalker (1979)

Sonhei com a imagem de cima, transformada em cenário de morte. Um homem fora atropelado e o corpo, por força de rebentações, esvaziara-se dos seus cinco litros de sangue, um sangue que se reduzia ao seu composto de água, água choca e estagnada que inundava o chão como se estivesse ali desde os primórdios. Um cão de orelhas afiladas rosnou-me de frente, forçando-me a um desvio e a olhar para a cabeça do homem morto caída a um canto. O rosto, do alto do seu canto, da sua esquina, traduzia em primeiro plano a juventude. Eu não o previra – esperara encontrar rugas, vincos de uma vida já bem vivida na pele sobre o crânio.

11/11/09


Fotografia de Nan Goldin

Lembra-se daquele instante, há muitos anos, em que, com toda a tranquilidade, havia entendido algo do núcleo duro da felicidade, a sua gravidade para além de qualquer traço de euforia, a sua agudeza e até argúcia no acautelar daquilo que tão plenamente se realizara entre a tempestade e a bonança.
*
O facto da “felicidade” (ou a percepção desta) ter ocorrido demasiado cedo na vida para logo se dissipar só pode agora ser olhado com ironia.

09/11/09

Vês que valeu a pena a passagem do tempo nem que seja por, agora, poderes caminhar outra vez por esta rua cheia de gente indiferente, sem que sintas no corpo em andamento pela terra as velhas emoções que te pareciam indissolúveis. Não se atravessa uma rua duas vezes sem que se aprenda algo acerca do desgaste. E após teres aprendido como tudo tão claramente se dissolveu, caminhas agora através da indiferença da multidão que em ti já assume a forma de um interior vazado. A rua não é paisagem mas tão só uma via ao nível do horizonte de chegada. Mas mesmo sendo o vazio aquilo que ouves em cada estalido das folhas que pisas, notas que começaste a possuir algo da sabedoria atribuída aos velhos. (Se dantes esperavas o fim, agoras esperas a neve.)

08/11/09


Fotograma de Ne te retourne pas, de Marina de Van


Fotograma de Mulholland Drive, de David Lynch

Reedescobrir o passado pelos processos da insânia, da paranóia que aflora à primeira fenda da amnésia. Buscar as origens confrontando o terror de um dia se ter perdido de si. Daí a nostalgia substituída pela angústia.

(Estava longe de imaginar que este filme francês Ne te retourne pas me iria proporcionar uma experiência semelhante à que tive há muitos anos, ao ver Mulholland Drive. Curiosamente, há em ambos os filmes os mesmos elementos: um acidente de carro, um caso de amnésia, duas mulheres tão imponentes como indefinidas, uma loira e outra morena que (se) trocam entre si.)

07/11/09

Ao cuidado da Alice:

“Contaram-me a história da noite do roubo dos comboios [em 1992]. Foi um acto muito triste. [Os responsáveis do caminho-de-ferro] foram à estação de Bragança buscar os comboios, mas foram de noite com medo da revolta das populações. Mentiram às pessoas, disseram-lhes que os comboios voltavam e nunca mais voltaram.”
Jorge Pelicano, realizador de Páre, Escute e Olhe no Ípsilon de ontem

(A tristeza da linha do Tua chega a conter em si uma espécie de poesia: a noite do roubo dos comboios, os comboios que nunca mais voltaram.)