11/11/09


Fotografia de Nan Goldin

Lembra-se daquele instante, há muitos anos, em que, com toda a tranquilidade, havia entendido algo do núcleo duro da felicidade, a sua gravidade para além de qualquer traço de euforia, a sua agudeza e até argúcia no acautelar daquilo que tão plenamente se realizara entre a tempestade e a bonança.
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O facto da “felicidade” (ou a percepção desta) ter ocorrido demasiado cedo na vida para logo se dissipar só pode agora ser olhado com ironia.

09/11/09

Vês que valeu a pena a passagem do tempo nem que seja por, agora, poderes caminhar outra vez por esta rua cheia de gente indiferente, sem que sintas no corpo em andamento pela terra as velhas emoções que te pareciam indissolúveis. Não se atravessa uma rua duas vezes sem que se aprenda algo acerca do desgaste. E após teres aprendido como tudo tão claramente se dissolveu, caminhas agora através da indiferença da multidão que em ti já assume a forma de um interior vazado. A rua não é paisagem mas tão só uma via ao nível do horizonte de chegada. Mas mesmo sendo o vazio aquilo que ouves em cada estalido das folhas que pisas, notas que começaste a possuir algo da sabedoria atribuída aos velhos. (Se dantes esperavas o fim, agoras esperas a neve.)

08/11/09


Fotograma de Ne te retourne pas, de Marina de Van


Fotograma de Mulholland Drive, de David Lynch

Reedescobrir o passado pelos processos da insânia, da paranóia que aflora à primeira fenda da amnésia. Buscar as origens confrontando o terror de um dia se ter perdido de si. Daí a nostalgia substituída pela angústia.

(Estava longe de imaginar que este filme francês Ne te retourne pas me iria proporcionar uma experiência semelhante à que tive há muitos anos, ao ver Mulholland Drive. Curiosamente, há em ambos os filmes os mesmos elementos: um acidente de carro, um caso de amnésia, duas mulheres tão imponentes como indefinidas, uma loira e outra morena que (se) trocam entre si.)

07/11/09

Ao cuidado da Alice:

“Contaram-me a história da noite do roubo dos comboios [em 1992]. Foi um acto muito triste. [Os responsáveis do caminho-de-ferro] foram à estação de Bragança buscar os comboios, mas foram de noite com medo da revolta das populações. Mentiram às pessoas, disseram-lhes que os comboios voltavam e nunca mais voltaram.”
Jorge Pelicano, realizador de Páre, Escute e Olhe no Ípsilon de ontem

(A tristeza da linha do Tua chega a conter em si uma espécie de poesia: a noite do roubo dos comboios, os comboios que nunca mais voltaram.)

06/11/09

O Panda, o Gordo e o Leandro

Pergunta-me se lembro o Panda, o Gordo e o Leandro. À minha negativa, fita-me incrédula então mas estes nomes não te dizem nada? Não, duas alcunhas e um terceiro nome verdadeiro que nada evocam. Repito interiormente cada nome para que eles esgotem o sentido (som) presente e ressoem como ressoariam talvez num passado onde tivessem sido pronunciados numa tarde, interpelando. Panda, Panda, Panda. Três pedras a cair no vácuo. Desse tempo lembro as figuras essenciais, as que se levantavam, as que tinham que ser – não retive personagens secundárias, do mesmo modo que não guardei uma só história.

05/11/09

Era já noite quando ela chegou. Poderia ter chegado a outro sítio qualquer do país mas fora nesta pequena vila que a haviam aceite. Chegou, tomou a ceia e instalou-se. Do terraço via o castelo, o convento e o casario. Haveria algo de pictórico na paisagem, seria talvez um sítio onde se pernoita uma vez e não mais se esquece. Porém, sabia que aí iria pernoitar não uma, mas um número indefinido de noites, e sob a capa desse conhecimento não logrou a visão pitoresca da terra que formaria um viajante solitário que por acaso lá aparecesse à noitinha e que logo abalasse de madrugada. Pelo contrário, com o peso de todas as noites em cima, a vila apresentava-se-lhe na sua estreiteza de mundo, de ruas que se entranhavam umas nas outras sem saída, de gentes que se metiam em actividades espúrias com injustificada satisfação. A terra abria-se num buraco. Uma voz murmurava trabalharás aqui até à morte numa faina de sol a sol, um trabalho que, sendo ou não mental, assumirá a forma de trabalho da terra, escavar o buraco ainda mais fundo, contribuir para o enterro geral. Viera lavrar um contrato com as gentes da terra e acabaria por lavrar a própria terra. Não iria escapar deste pacto de sobrevivência.

02/11/09

Talvez os sonhos tenham alguma autonomia para lá da consciência. Talvez sejam, no momento em que brotam, se não uma existência, pelo menos uma presença. Queres acreditar que a perfeição sonhada esta noite foi real nalgum ponto paralelo. Desejo extravagante e falso: amanhã, do sonho que julgaste perfeito terás somente uma reminiscência de entulho cuja realidade já não mais te importará.

01/11/09

Novembro

E porque este ano tem passado não propriamente a correr mas decorrendo por um longo corredor que não leva a lado algum, com algumas paragens para pensar ou fingir que se pensa sobre o sucedido mais o menos recente, é pois com satisfação que chegamos a Novembro e nos aproximamos do fim do ano. Pensamos: pode ser que neste avizinhamento ao limiar vejamos onde isto nos leva ou que talvez depois nos surpreendamos com o início subsequente. E porém, sabemos que o fim do ano não é mais que o remate de um ciclo acordado por leis que transcendem os nossos afazeres, quero dizer, não haverá fim nem início de coisa alguma.

31/10/09


Hesitas na vingança sempre que recordas algum traço mais quebradiço do rosto dele. Percebes que não pertence a um monstro esse pequeno abatimento de expressão. Mas logo concluis que é precisamente por não chegar a monstro que ele merece a dor. A punição aplica-se aos homens.

30/10/09

(Lição de escrita)

Evitemos deslumbrarmo-nos com o som das nossas próprias palavras. Tenhamos em conta este facto singular: as crianças, quando devidamente ensinadas e quando detentoras de um vocabulário rico, são excelentes construtoras de metáforas.

29/10/09

(Desse capricho de querer retomar o ballet)

Como se retomasse também a tranquilidade com que executava os movimentos ao som das marteladas, mais melosas do que brutas, do piano junto ao espelho. (Nos sonhos, aparecia-lhe um piano literalmente mecânico. Ou então uma impecável caixinha de música cujo repertório era dado à manivela por mãos enrugadas.) Portanto, volta-se a fingir, até com prazer, que se é uma boneca cheia de sentimentos capaz de os expressar ao som da música programática que carece de outro alento que não seja o de ajudar a coordenar movimentos já estudados. Sustendo sempre o equilíbrio. Pois sim, equilibrar-se olhando de frente para o espelho da sala de ensaios, cristalizar-se no seu reflexo imóvel. Sem pensar nas quedas no chão que fazem parte dos seus hábitos e quantas vezes da sua vontade algoz. (Em casa reduz os espelhos a pequenas superfícies cortantes, ainda que, conscienciosa, veja nelas o seu derradeiro reflexo.)

26/10/09

Começa a ter dificuldade em arranjar personagens para as suas análises que considera ternas. Ninguém se lhe apresenta com uma força inerente fidedigna. Prefere extrair os máximos rasgos humanos a partir do mesmo vulto, isto é, do mesmo morto de sempre, um desses mortos que nunca tendo possuído uma presença inteiramente viva em algum ponto do passado, pôde ser coroado com particularidades de personagem.

25/10/09

Da suficiência



(Que nos possamos despedir assim, reconhecendo que é suficiente o que nos foi dado viver. Não que consideremos supérfluos os dias que poderão ainda vir: simplesmente os dias passados são já bastante. Uma música para ser ouvida numa idade avançada, numa idade que não esta.)

24/10/09

Não se tratava de seres "feliz por coisas simples", não se tratava de simplismos. Mas é inegável que, imbricado nas tuas fantasmagorias, tinhas essa capacidade de te elevares a partir de um trecho musical, de um excerto de tempo que se apresentava mais ou menos auspicioso à tua frente, de um pedaço de espaço onde te podias estender ao largo. E isso perdeste-o. Acordaste um dia e os acordes que ouviste logo pela manhã vindos da rádio não te fizeram levantar mais do que o necessário para te teres de pé e ires trabalhar. E não foi a prática diligente da vida nem a sabedoria que te fizeram perder esse poder de exaltação ingénua, mas o contrário, a escassez de contacto com novas regiões do exterior, a falta de mundividência que acabou por se esgotar no vácuo, o abuso do imaginário sobre um terreno reservado ao embate.