Era já noite quando ela chegou. Poderia ter chegado a outro sítio qualquer do país mas fora nesta pequena vila que a haviam aceite. Chegou, tomou a ceia e instalou-se. Do terraço via o castelo, o convento e o casario. Haveria algo de pictórico na paisagem, seria talvez um sítio onde se pernoita uma vez e não mais se esquece. Porém, sabia que aí iria pernoitar não uma, mas um número indefinido de noites, e sob a capa desse conhecimento não logrou a visão pitoresca da terra que formaria um viajante solitário que por acaso lá aparecesse à noitinha e que logo abalasse de madrugada. Pelo contrário, com o peso de todas as noites em cima, a vila apresentava-se-lhe na sua estreiteza de mundo, de ruas que se entranhavam umas nas outras sem saída, de gentes que se metiam em actividades espúrias com injustificada satisfação. A terra abria-se num buraco. Uma voz murmurava trabalharás aqui até à morte numa faina de sol a sol, um trabalho que, sendo ou não mental, assumirá a forma de trabalho da terra, escavar o buraco ainda mais fundo, contribuir para o enterro geral. Viera lavrar um contrato com as gentes da terra e acabaria por lavrar a própria terra. Não iria escapar deste pacto de sobrevivência.